transtorno de compulsão alimentar
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“Por que todo mundo pode e eu não?”

Quem nunca se fez essa pergunta durante uma dieta, seja para emagrecer ou para ganhar músculos?

Pois é, gente. Nunca ninguém disse que seria fácil. Várias vezes vão bater esses dias de revolta com seu corpo e com a sua dieta. Várias vezes você vai querer enfiar o pé na jaca, chutar o balde e deitar o cabelo no Outback com tudo que você tem direito. 

Compulsão Alimentar

Não é fácil, mas também não é impossível!

Nos últimos anos conciliando a terapia comportamental à minha reeducação alimentar, pude aprender melhor sobre essa dificuldade que temos em mudar nossa cabeça para poder melhorar nossos corpos. É quase uma “reconstrução do eu”. Precisamos entender melhor nossos padrões comportamentais e mentais e lutar para transformá-los em algo mais positivo se quisermos mudar nossa imagem externa de maneira saudável e sem nos machucar.

Na terapia, eu aprendi qual a minha relação com a comida e o que ativa os gatilhos da minha compulsão. Basicamente é a autoaceitação que vem só depois da aceitação dos outros. Para me sentir amada e útil às pessoas, eu abdicava dos meus desejos, vontades e até mesmo da minha personalidade se fosse preciso. Tudo porque eu achava que não era digna de nada mais além de migalhas. Era como seu eu aceitasse a pontinha da sombra do guarda-sol na praia que me davam, ainda que eu queimasse todo o resto do corpo desprotegido. Mas tudo bem. Pelo menos eu tinha aquela pontinha. Pelo menos eu havia “merecido” aquilo. Sabem como é? Alguém aqui já se sentiu assim também? Acredito que sim.

E então eu aprendi o poder da assertividade. De falar “não” quando a gente sabe que não pode nem deve aceitar menos do que merecemos. Dizer “não” para aquilo que não queremos fazer porque não respeita o nosso momento. Respeitar a si mesmo acima de tudo, sem faltar com respeito aos outros. Até hoje essa é uma batalha interna muito grande. Racionalmente eu sei que preciso dizer “não” ou “basta” a certas coisas, mas emocionalmente eu não quero negá-las por medo de ser rejeitada ou de frustrar as expectativas dos outros comigo.

Querer sempre atender às expectativas alheias é um jogo perigoso, um ciclo vicioso do qual é extremamente difícil se libertar. A gente quer atender às expectativas da família, do namorado/marido, dos amigos, do chefe e dos colegas de trabalho, dos clientes… Mas e as nossas expectativas para conosco e com os outros? Ai, que amargura! 🙁

De tanta angústia que eu carregava aqui dentro sozinha, o que me sobrava para me consolar? A comida. Afinal, o que eu como, quando como e o quanto como só eu posso decidir, por mais que a revista Boa Forma me dê cardápios pasteurizados para chapar a barriga em 5 semanas e por mais que a nutri tentasse me ajudar compondo o cardápio mais adaptado para minha rotina e minha personalidade. Era a única coisa que, na minha cabeça, eu tinha “controle”. Muito entre aspas, né? Porque a partir do momento que somos compulsivos, não somos controlados. Uma senhora contradição!

É a tal da fome emocional. A gente quer comer para suprir vazios emocionais que brotam e crescem aqui dentro da gente e que se a gente não cuidar, não vão parar de crescer até que chegamos a problemas psicológicos ainda mais graves que vitimizam muitas pessoas todos os anos.

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Geralmente, pessoas que fazem dietas e regimes sem sucesso por muito tempo (como eu) arrastam um lastro: o medo de comer. Mas o mesmo medo não inibe a vontade, a compulsão. Não queremos engordar, porém não queremos perder o prazer de comer, muito menos a sensação de preenchimento (não só do estômago, mas das feridas emocionais) que a comida nos proporciona. Então, “por que todo mundo pode comer sorvete e eu não?”. Nossa, quantas vezes eu já não me questionei isso! Até hoje, quando estou mais deprê, ainda me pego com esse pensamento. “Por que não posso levar uma vida ‘normal’ como todo mundo?”

A questão é que tudo que gera privação gera também a compulsão. “Você não pode comer batata frita porque engorda e dá celulite. Você tem que viver o resto da vida comendo salada se quiser ser magra que nem a atriz da novela”. Gente, que vida é essa? Não, parem o mundo porque tá tudo errado! A gente pode SIM saciar nossas vontades de vez em quando. Se não vamos passar a vida toda comendo escondidas e enganando não apenas aos outros, mas a nós mesmas. É só não deixar que a exceção se torne regra.

Por isso eu sou muito contra a privação aleatória, sem motivo algum e sem necessidade. Devemos criar nossas próprias regras e nossas próprias concessões, e não nos guiar pelas regras loucas e radicais que as pessoas criam para nós aí fora. E isso a gente só consegue a partir do momento que nos conhecemos de dentro para fora. A partir do momento que identificamos a fome que estamos sentindo e que tipo de alimento queremos ingerir e porquê queremos ingeri-lo:

Qual problema a comida vai consertar aqui dentro de mim naquele determinado momento? O que eu estou sentindo? Do que preciso? Carinho, colo? A comida vai sanar essas minhas necessidades?  Eu estou comendo porque estou com fome física (meu estômago está roncando) ou porque estou carente de algo emocional? A partir do momento que já comi, continuo comendo porque ainda estou com fome, porque estou com vontade ou é “gula”?

Isso é um exercício diário que deve ser feito sempre antes de comer. Aprendi com a minha terapeuta e me ajudou muito a perder os (quase) 10 primeiros quilos a partir que passei a entender por que eu como e quando como. E recentemente ainda recebi de uma querida amiga a indicação do livro “Liberte-se da fome emocional”, da autora Geneen Roth, que ensina os mesmos exercícios basicamente. Eu recomendo!

liberte-se da fome emocional geneen roth

Bom, nunca fui de expor esse assunto a muitas pessoas (pouquíssimos amigos conheciam meu problema de compulsão alimentar até hoje, acredito), justamente por achar que as pessoas me rejeitariam e não me aceitariam mais. Mas hoje sei também que falar abertamente, sem tabus, sobre o problema é uma das coisas que nos ajudam a superá-lo.

E espero que cada vez mais pessoas se sintam confortáveis para falar sobre o assunto e, assim, a gente possa se ajudar e superar tudo isso para sempre. Afinal, a intenção deste blog é ser útil para vocês de alguma forma, seja com uma dica de treino ou com um papo cabeça como esse.

É como disse o poeta romano Juvenal: Mens sana in corpore sano. (“Uma mente sã num corpo são.”)

Super beijo e força na peruca!

 

[Curiosidade: Em 2011 eu cheguei a pesar 83kg medindo 1,59m de altura. Hoje, estou na casa dos 73kg e muito mais feliz comigo mesma, mesmo sabendo que ainda tenho entre 8 e 10kg para eliminar. Devagar e sempre! O importante é não parar nunca ;)]

 

 

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