O mito do "balanço energético": por que não basta comer menos e se exercitar mais para emagrecer?
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O mito do “balanço energético”: por que não basta comer menos e se exercitar mais para emagrecer?

Se o segredo do emagrecimento fosse só comer menos e se exercitar mais, a obesidade não estaria crescendo a níveis alarmantes, certo? Afinal, é muito simples: basta seguir uma dieta hipocalórica e se acabar na academia.

Mas, ué! Se você já tentou isso a vida inteira ou boa parte dela, por que é que então continua acima do peso? Não só você, aliás, mas a grande maioria das pessoas que, pelo menos uma vez na vida, já tentaram emagrecer sem sucesso ou então com extrema dificuldade.

Para esclarecer essa questão do “balanço energético” que faz com que a gente se sinta altamente incapaz de controlar a nossa própria boca e mudar nosso corpo, trouxe um artigo fantástico do Wolfram Alderson,  diretor executivo e fundador do Instituto para a Nutrição Responsável, que traduzi especialmente pra vocês. O original está aqui.

Espero que esse seja mais um post útil pra vocês!

Boa leitura!

O balanço energético é um mito do marketing

“Uma mentira pode obter metade do mundo antes que a verdade pode até obter suas botas.” (Mark Twain)

As oito doenças primárias relacionadas à síndrome metabólica representam cerca de 75% dos custos de saúde nos Estados Unidos.

Nota de tradução: as oito doenças relacionadas à síndrome metabólica são:

1. Resistência à insulina

2. Hiperlipidemia

3. Gordura no fígado

4. Hipertensão

5. Doenças cardiovasculares

6. Síndrome do ovário policístico

7. Câncer

8. Demência

fonte

Para escapar da culpa por seu papel na pandemia das doenças metabólicas, as companhias de alimentos e bebidas resolveram terceirizar a responsabilidade aos consumidores ao se esconderem atrás de um conceito pseudo-científico chamado “balanço energético”. Eles usaram essa narrativa para dominar os debates sobre comida e fitness por décadas, empunhando essa chamada “ciência” para levar ao descrédito tudo e todos que ousassem desafiá-los.

O marketing de alimentos se apoia no princípio clássico da Propaganda: “se você contar uma mentira muitas vezes, ela acaba se tornando uma verdade.”

Separar o fato da ficção é essencial se a sociedade deseja fazer qualquer progresso quando o assunto é melhorar coletivamente a nossa saúde.

Para desconstruir o mito do balanço energético, nós vamos fazer uso do básico da Ciência – Física, Biologia e Química. E um pouco de História também.

O que é o mito do balanço energético?

Simplesmente afirmando que:

Energia entrando (E+) – Energia saindo (E-) = mudanças no depósito de gordura corporal

Esse mito estabelece que:

A mesma quantidade de energia que entra (calorias consumidas, E+) e de energia que sai (calorias “queimadas”, E-) ao longo do tempo = o peso corporal se mantém o mesmo.

Mais energia entrando e menos saindo ao longo do tempo = ganho de peso.

E mais energia saindo e menos entrando = perda de peso.

A princípio, isso parece um tanto óbvio. Mas essa não é a verdade. Essa simplificação faz uso de falsas suposições. Para compreender melhor o nosso funcionamento metabólico, vamos usar ciência e não mitologia.

E = Energia, C para Combustível

Vamos começar com o grande E: energia.

Na verdade, quando a indústria diz “energia”, eles estão na verdade se referindo a comida.

A comida É energia?

É aqui que entra a falsa suposição. A diferença entre combustível e energia é crítica.

Em Física, energia é uma propriedade dos objetos que pode ser transferida para outros objetos ou convertida em diferentes formas, mas não pode ser criada ou destruída. As duas principais formas de energia são a energia cinética e a energia potencial.

Energia cinética é a energia do movimento. A água em movimento e o vento são bons exemplos disso.

A energia potencial é a energía estocada. Combustíveis são quaisquer materiais capazes de armazenar energia potencial de forma que ela possa ser liberada e utilizada para o trabalho. Exemplos de energia potencial são: o óleo armazenado em um barril, ou a comida no seu prato. Se as reações certas acontecerem, elas vão liberar muita energia e realizar muito trabalho.

Em Física, trabalho é a transferência de energia. Isso pode soar como uma pegadinha, então aqui está uma boa ilustração disso – um arremessador jogando uma bola:

Baseball_pitching_motion_2004

No baseball, o “trabalho” do arremesso acontece quando o jogador transfere a sua energia para a bola. E qual o combustível desse trabalho do arremessador? A comida.

A indústria de comida processada quer que chamemos a comida de energia em vez de combustível porque eles não querem que pensemos sobre as nossas complexas reações biológicas e químicas, as quais são chamadas de nutrição e metabolismo. Isso é vital para que entendamos que energia e combustível não são a mesma coisa.

Jogando a bomba

Calorias são as unidades de energia estocada; a quantidade de energia necessária para elevar 1g de água em 1ºC.

O dispositivo que mede calorias, ou unidades de energia contida na comida, é algo que se chama de Bomba Calorimétrica.

Pierre Eugène Marcellin Berthelot (1827-1907), um químico francês, inventou a bomba calorimétrica em 1881. O dispositivo determina o calor de combustão de substâncias alimentares, queimando-as em um compartimento metálico colocado em um recipiente de água em isolamento.

O calor produzido é transferido para a água. O aumento da temperatura da água determina o calor liberado pela comida. Essa unidade central de medida, a caloria, é derivada de um dispositivo inventado mais de um século atrás que queima coisas num forno pequeno. Isso lança luz a outra falsa suposição no mito do balanço energético: o corpo humano não é um forno.

Essa é a Bomba Calorimétrica, criada no século 19

Essa é a Bomba Calorimétrica, criada no século 19

O processo no qual a energia potencial é liberada não é combustão, e sim metabolismo. Metabolismo inclui todas as reações biológicas e químicas que garantem a sobrevivência das nossas células.  O metabolismo é tão eficiente quanto o seu combustível.

Todos nós estamos familiarizados com a expressão “você é o que você come”. Esse é mais um mito.

Se você entende como o metabolismo funciona, você vai perceber que na verdade você é o que você faz com o que você come, ou melhor: você é o que você metaboliza.

O que você metaboliza depende de várias variáveis: a qualidade e o conteúdo da comida que você come, o estado em que se encontra o seu metabolismo, as bactérias no seu intestino, seus níveis de stress e até mesmo a qualidade do seu sono e quantas horas você dorme por noite.

As mesmas calorias de um copo de leite ou de um copo de refrigerante são metabolizadas de maneiras muito distintas no corpo humano. Enquanto o leite nutre, o refrigerante leva energia excessiva para as células que, geralmente, são armazenadas como gordura. A segunda via metabólica (a do refrigerante) também desencadeia uma cascada de reações negativas que danificam o fígado e prejudicam a eficiência do metabolismo. Esses eventos combinados levam ao ganho de peso e às doenças metabólicas.

Não surpreendentemente, a indústria de alimentos processados quer que você acredite que uma porção de Reese’s Pieces¹ é o mesmo que uma porção de amêndoas. Em uma bomba calorimétrica, realmente, eles são o mesmo, mas no corpo humano, não. Porque nós não somos fornos.

¹um tipo de doce, tipo bala, feito de manteiga de amendoim, muito popular nos EUA

A comida é combustível, não energia. Comida é uma substância que contem energia assim como outros valores (que podem ser positivos e/ou negativos) que podem ser transferidos para um organismo vivo (com efeitos nocivos e/ou benéficos).

Comida é mais do que a soma de suas partes

Na verdade, comida “de verdade” é mais até do que um simples combustível.

Comida “de verdade” é viva e complexa e conteis macronutrientes bioativos (gordura, proteína e carboidratos, incluindo fibras), micronutrientes (incluindo vitaminas e minerais), fitoquímicos benéficos, além de milhões de microorganismos – alguns ruins, mas a maioria bons.

O processamento da comida remove muitos dos seus componentes benéficos (fibras, nutrientes e microorganismos) para aumentar o tempo de prateleira e a “palatabilidade”. E para piorar, a comida processada ainda recebe milhares de “aditivos”.

Veja os dados do EAFUS (tradução livre: Tudo o que é adicionado aos alimentos nos EUA) e do GRAS (tradução livre: Geralmente Considerado Seguro), do FDA (U.S. Food and Drug Admnistration – o equivalente à ANVISA no Brasil). Antes, havia 180 itens que eram considerados GRAS (geralmente considerados como seguro). Agora, existem 10.000. Você realmente acha que existam 10.000 coisas que você pode engolir com segurança?

O aditivo industrial dominante no mundo todo é o açúcar. Não o açúcar que encontramos nas frutas e vegetais, que é envolto por fibras, vitaminas e minerais. Mas o produzido pela indústria a partir das commodities como beterraba, milho e cana de açúcar. Existe uma grande diferença entre os dois tipos de açúcar.

O americano comum consome 22.6 colheres de chá açúcar por dia. Isso equivale a 107 gramas, das quais metade é frutose. E muitos consomem mais do que o dobro dessa quantia. Esse nível de açúcar tem um impacto bem diferente no corpo do que o açúcar que você consome ao comer uma laranja, e é um fator de risco para o desenvolvimento de doenças relacionadas à alimentação.

No interior de cada vida humana existe um sistema metabólico (uma engenharia celular que pode ser transformadora e produtiva ou degenerativa e debilitante) nos matando lenta e dolorosamente ao longo das nossas (degradadas e encurtadas) vidas. O sistema metabólico é composto por órgãos, hormônios e enzimas que trabalham em conjunto para digerir, absorver, processar, transportar e excretar os constituintes essenciais para a vida. Quando esse sistema começa a falhar por causa do combustível que você fornece a ele, sua saúde se torna comprometida. Essa é a diferença entre saúde e doença.

A indústria alimentícia diz que “comemos demais e nos exercitamos de menos”. A propaganda garante que você acredite nessas palavras como verdade absoluta. Parece óbvio, mas não é.

A ideia do “balanço energético” é um mito poderoso do marketing que leva o público a aceitar falsas preposições como sendo Ciência. A indústria de alimentos processados se esquiva da Ciência e usa seus fundos gigantescos de marketing como uma ferramenta de enganação.

Isso vem funcionando há 50 anos, desde o início da cultura da comida processada. A questão é se o mito vai continuar em vigor ou se a Ciência (de verdade) vai derrubar meio século de mentiras. E, principalmente, se as pessoas vão recuperar sua saúde se alimentando simplesmente da boa e velha comida de verdade.

Minha opinião

Pra mim, dietas hipocalóricas (baixa ingestão de calorias) funcionam sim quando o assunto é emagrecimento (não necessariamente saúde ou composição corporal), mas tudo depende da qualidade dessas calorias que você está ingerindo. As barrinhas de cereais industrializadas, por exemplo, que são considerada “super saudáveis”, têm poucas calorias, mas a qualidade delas é sofrível – sem falar na quantidade de açúcar na composição!

Além disso, ninguém consegue viver passando fome, como preconizam as dietas tradicionais de baixas calorias e low fat (baixa gordura). Se for uma estratégia temporária, ok, mas antes disso você precisa ter uma base sólida de uma reeducação alimentar pra não voltar comendo tudo depois e engordando de novo.

Eu mesma no momento em que escrevo esse post to numa fase da minha alimentação em que preciso contabilizar macronutrientes (dentro da Paleo), mas essa é uma estratégia pra um objetivo específico (redução de gordura corporal), uma vez que parece que meu peso (e medidas) parece ter entrado em platô.

Neste post aqui, também já falamos que não são os exercícios físicos que nos tornam magros, e sim a nossa comida. Além disso, temos as questões hormonais que influenciam e muito nos nossos resultados, por mais disciplinados que sejamos.

Então, você é responsável pela sua alimentação sim, mas quando não temos as informações necessárias e de fontes confiáveis, fica mais fácil de errarmos a mão e aí o processo não se torna sólido, consistente – que é a ideia de tudo isso, não?

Essa é a minha opinião. E vocês? O que pensam sobre o assunto? Vamos tricotar!

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