Alimentação saudável ortorexia
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Sua busca pela alimentação saudável está passando dos limites?

Reeducar a alimentação é uma coisa linda, mas existe uma diferença entre a busca por hábitos mais saudáveis e a obsessão por eles.

Quando a pessoa entra nessa “noia”, é bom prestar atenção pra não entrar no que chamamos de ortorexia – um transtorno alimentar que vem atingindo cada vez mais pessoas E pra falar desse transtorno alimentar que tem se tornado bastante comum, eu bati um papo com a minha querida Leticia de Oliveira, terapeuta comportamental, de quem eu tanto falo pra vocês quando o assunto é emagrecimento e TAs.

VF – O que é a Ortorexia? 

Leticia: Ortorexia é um transtorno alimentar da atualidade, onde a pessoa fica obcecada por comidas saudaveis. Da mesma forma como nos outros transtornos alimentares há uma extrema preocupaçao com os alimentos, mas ao contrário do anoréxico, que não quer ingerir nenhuma caloria (mesmo as calorias saudáveis), o ortoréxico só quer ingerir o que tiver vitaminas e nutrientes.

VF – O quão tênue é a linha tênue entre a busca por hábitos saudáveis e um transtorno alimentar?

Leticia: É tênue como qualquer outro comportamento que pode funcionar como compensador. Por exemplo: existe uma linha tênue entre comprar e comprar compulsivamente; beber socialmente e se tornar um alcoolista.

A comida passa a ter função compensatória naqueles indivíduos com problemas emocionais e, como é um comportamento normalmente reforçado socialmente (ao comer saudavel você perde peso e as pessoas acabam muitas vezes admirando em vez de criticar, como aconteceria em outros comportamentos compensatórios), então fica muito mais difícil perceber que há um problema por trás de um ato caracterizado como saudável.

VF – Quais os sinais de alerta pra saber se estamos ultrapassando essa linha?

Leticia: Basicamente a pessoa demonstra uma preocupação excessiva com o que vai ingerir e gasta muita energia escolhendo e até evitando locais que não ofereçam comidas extremamente saudáveis. Essa preocupação muitas vezes vira prioridade na vida da pessoa, e ela acaba dando menos importância para o lado social, para família, estudo e até mesmo para o trabalho.

O lado social, aliás, é um ponto que merece bastante destaque: a pessoa com esse transtorno evita ir a festas, bares e outros locais sociais, e quando vai leva o próprio alimento. Tudo isso para nao ingerir alimentos “errados”.

VF – A ortorexia sempre existiu ou é um transtorno “moderno”, digamos assim?

Leticia: Eu acredito que seja um transtorno da atualidade. Não que não exista na História caso de pessoas com esse distúrbio, mas o padrão “ser saudável” é muito atual. Há 10 anos, as pessoas fumavam, não se exercitavam e sabiam muito pouco sobre a comida que ingeriam. Hoje temos vários ganhos em questão de saúde, mas também trouxe o acesso a muitas informações sobre alimentos que nem todo mundo sabe usar da forma adequada.

VF – Outros transtornos alimentares podem levar à ortorexia, e vice-versa?

Leticia: A base de todos os transtornos alimentares é o mesmo: preocupação excessiva com comida. Isso significa que nao é difícil haver migração de um transtorno para o outro. Ou seja, uma pessoa que se preocupa muito em ser saudável pode desenvolver fobia de engordar, o que levaria a uma anorexia. O contrário tambem poderia acontecer.

VF – E quanto às razões ou gatilhos que levam à ortorexia? Eles podem ter a mesma raiz que os demais transtornos (como bulimia e compulsão)?

Leticia: Acredito que todos nós temos gatilhos de compensação. Alguns brigam, outros bebem, outros comprar, outros comem ou até mesmo contam calorias. Mas há algo bem comum naqueles que desenvolvem o transtorno alimentar: a dificuldade de controlar questões importantes da própria vida. Normalmente há uma acomodação com questões que não estão boas, e esse controle extremo é direcionado para o lado alimentar.

VF – É possível se curar de uma ortorexia ou o paciente deverá sempre cuidar da “manutenção” dos seus comportamentos e pensamentos?

Leticia: Não falamos em cura, mas sim em mudança de comportamento. A partir do momento que há o entendimento da função da comida na vida do paciente e que há mudanças do comportamento, há naturalmente uma diminuição do “pensar na comida”.

Mas como qualquer comportamento “novo”, devemos constantemente monitorar para que ele não deixe de acontecer. Os comportamentos antigos são mais fáceis e mais instintivos.

VF – Como uma pessoa pode EVITAR se tornar um ortoréxico, principalmente quando ela está em busca de mudanças de hábitos alimentares e de vida, e quando somos tão bombardeados por informações, novas “dietas” e fotos de pessoas com corpos esculpidos?

Leticia: Nem todo mundo tem pre disposição a ter um transtorno alimentar. Isso depende da personalidade e da história de vida de cada pessoa. Mas isso não significa que não temos que ficar atentos a isso – até porque não sabemos se temos ou não essa pré-disposição. A melhor forma de se prevenir de qualquer comportamento compensatório é se conhecer e buscar mudanças de hábitos quando identificados. Outra dica importante é olhar para a vida social: ela é um ótimo indicativo para dizer se as coisas estão normais ou não.

+ Aproveite e leia também este post sobre dietas restritivas x transtornos alimentares.

Gente, a intenção desse post não é colocar minhoca na cabeça de ninguém, ok?

No fundo no fundo, todos nós temos o mínimo de consciência pra sacar quando as coisas fogem do nosso controle e quando alguns comportamentos ou pensamentos tão exagerados na nossa vida. A ideia desse post (e do blog em geral) é sempre abordar os assuntos da forma mais clara e honesta possível, porque muitas pessoas que estão na mídia (e que poderiam conscientizar muito mais gente do que eu) evitam falar sobre esses bastidores da “vida saudável”. E se é pra ser saudável, que seja não só o corpo, mas principalmente a cabeça! Porque, acreditem: a vida é muito maior do que uma marmita ou do que um percentual de gordura. 

Espero que tenham curtido o post e que ajude a esclarecer algumas dúvidas de vocês sobre o assunto! E qualquer coisa, sei que a Leticia teria o maior prazer em bater um papo com vocês, assim como eu. A Lê, aliás, tem um perfil no Instagram (@psicoleticia) e uma Fan Page no Facebook, e vocês podem contata-la e acompanha-la por lá também =)

4 Comments

  • Ana Luiza Pimentel

    March 28, 03 2015 03:23:18

    Excelente matéria, Tici

    • Ticiane Toledo

      March 31, 03 2015 11:34:10

      Obrigada, Anita! A ideia é esclarecer sempre =)

  • Roberta Luglio

    May 06, 05 2015 07:51:15

    Adorei o post, Tici! Concordo com o que vc disse… a vida saudável, o emagrecimento e as marmitagens todas são lindos, mas a coisa vai muito além disso. 🙂
    Beijo!

    • Ticiane Toledo

      May 08, 05 2015 10:34:45

      Sim, tem que ser prazer, né? Se virou “obsessão”, sofrimento ou motivo de isolamento social, acho que não é um bom sinal. LÓGICO que depende do seu objetivo: por exemplo, um atleta de fisiculturismo necessita passar por isso, mas é uma fase apenas (pre-contest). No período off season, ele é uma pessoa normal e até o corpo responde diferente. Enfim. Temos que achar o ponto de equilíbrio, e isso é super particular e individual =) Beijo, linda!

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